A Crise da Construção no Brasil

A Crise da Construção no Brasil

Quando o canteiro vira termômetro de um país caro e difícil de operar.

Quando o canteiro vira termômetro de um país caro e difícil de operar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A construção civil brasileira atravessa um período de pressão que não se explica por um fator isolado. O que ocorre no pós pandemia é um desalinhamento entre custo, capacidade produtiva e previsibilidade. O setor funciona como um termômetro das condições reais de operação no país.


O problema tem raízes conhecidas. O custo de construir passou a ser ditado cada vez mais pelo preço da mão de obra, enquanto a produtividade não acompanha esse encarecimento. Paga-se mais para fazer, sem receber mais, melhor ou mais rápido. Análises recentes sobre o INCC mostram o componente de mão de obra acelerando acima dos materiais. A mão de obra voltou a ser o principal vetor de pressão inflacionária no setor.


Essa leitura desfaz um argumento que era comum até pouco tempo. Quando a pressão vinha de aumentos do preço do aço ou do cimento, havia explicação ou justificativa para orçamentos estourados. Quando o vetor passa a ser a mão de obra, o problema é mais complexo. Envolve qualificação, tecnologia, organização, eficiência e capacidade de planejar num país onde a imprevisibilidade tem custo caro.


A escassez de mão de obra combinada com o encarecimento gera um ciclo difícil de interromper. Empresas competem por trabalhadores, salários sobem, o custo direto cresce. Para proteger margens, comprime-se prazo, renegociam-se contratos, reduz-se escopo. O canteiro absorve essas pressões com retrabalho e improviso. Os custos indiretos e financeiros sobem junto com o risco de atraso. O resultado não é bom.


O pano de fundo macroeconômico agrava esse quadro. Juros altos encarecem o crédito, reduzem lançamentos em segmentos dependentes de financiamento e aumentam o custo de carregamento de estoques. Cada semana de atraso tem um preço maior quando o custo de oportunidade é alto. O setor opera com uma pressão financeira que se acumula antes mesmo de qualquer problema no canteiro.


Programas habitacionais e carteiras de infraestrutura sustentam parte da demanda. Mas demanda não resolve o problema de execução. O setor precisa de três condições ao mesmo tempo: volume suficiente para operar, capacidade de transformar contratos em obras e previsibilidade para que o orçamento seja cumprido. Quando uma dessas condições falha, o resultado não é desgaste acumulado: projetos que não fecham a conta, obras que atrasam, empresas que saem do mercado e investidores que recuam por falta de equilíbrio entre risco e retorno.


O setor é heterogêneo. Abrange desde o pequeno empreiteiro até grandes consórcios de infraestrutura, do residencial popular ao alto padrão, da reforma urbana à obra pública. O que costura esses mundos no período atual é o mesmo par de variáveis: custo e mão de obra. O país que encarece o canteiro encarece também a gestão. O mercado que não forma trabalhadores suficientes faz com que empresas a compitam pelo que existe. O impacto passa a ser sistêmico porque é a construção que suporta moradia, mobilidade, saneamento, energia e logística. Quando trava, trava produtividade nacional.


A escassez de trabalhadores não é só numérica. O setor gera vagas, mas encontra dificuldade para preencher funções específicas, sobretudo em acabamento e execução especializada. Há também uma disputa geracional: a construção compete com serviços, logística e plataformas digitais por jovens que veem o trabalho no canteiro como pesado, arriscado e pouco atrativo. Pagar mais resolve até um ponto. Depois disso, o gargalo passa a ser capacitação e retenção. Contratar, treinar, perder e recontratar, treinar, perder um ciclo que consome prazo e qualidade de forma invisível nas planilhas.


Parte do setor responde com ferramentas digitais. BIM, automação de orçamento, controles de suprimentos e aplicações de inteligência artificial em rotinas gerenciais ganham adoção. Não como novidade, mas como resposta ao aumento do custo operacional. O objetivo é reduzir retrabalho, aumentar previsibilidade e extrair produtividade onde for possível.


A adoção dessas ferramentas é desigual. Grandes empresas investem em processos, capacitação, padronização e integração de projetos. E e os pequenos e médios? Esses operam com margens mais estreitas e menor capacidade de investimento. O risco é que a distância entre os dois grupos cresça. Quando o risco sobe e o capital fica seletivo, o mercado passa a preferir quem entrega certeza. Quem não consegue oferecer isso perde acesso ao mercado.


A cadeia de suprimentos vive uma estabilização em nível alto. Depois do pico de disrupção global, os insumos pararam de subir, mas não voltaram ao patamar anterior. O orçamento deixou de ser comparado com 2019 e passou a ser comparado com o padrão pós pandemia. Qualquer desvio pontual, um material que dispara, uma entrega que atrasa, um fornecedor que falha, empurra a obra para contingenciamento.


Burocracia e licenciamento ampliam a incerteza, prolongam prazos e aumentam custos indiretos. Infraestrutura de transporte insuficiente afeta entrega, logística de obra, preços de distribuição e risco de cronograma. O custo final de uma obra no Brasil tem várias camadas, e nem todas aparecem na nota fiscal.


Para quem decide, seja no setor público ou privado, a pergunta relevante mudou. Não é só "quanto custa", mas "por que custa tanto". Quando o custo é resultado de fricções estruturais, um desconto pontual ou uma linha de crédito isolada não resolve. Qualquer resposta de longo prazo passa por formação profissional, incentivos, regulação, mecanismos de contratação pública e industrialização. Falar de "mais investimento" é mais simples do que discutir as condições que permitem que investimento vire obra no prazo e no custo definidos.


Há um risco adicional: tratar a crise como norma. O setor pode crescer em alguns indicadores e, ao mesmo tempo, operar com baixa qualidade de execução e alta fragilidade financeira. Obras acontecem, mas o sistema funciona mal: contratos mais defensivos, prazos mais folgados, preços mais altos, litígios mais frequentes e menos espaço para mudança. Para o investidor, a construção passa a ser um ativo de baixa previsibilidade. Para o empresário, o negócio fica refém de variáveis fora do seu controle. Para o poder público, a promessa de entrega vira fonte recorrente de frustração.


A construção civil brasileira pós pandemia mostra um país onde o custo do trabalho cresce mais rápido do que a produtividade, e onde planejar é mais difícil do que executar. O setor responde com o que tem disponível: tecnologia em alguns casos, renegociação em outros, adaptação onde possível. O problema que fica é de outra ordem. A construção suporta moradia, infraestrutura e competitividade. Quando opera mal, o efeito não fica no canteiro. Tem reflexos na sociedade como um todo.

Referências

CBIC. Desempenho da Construção Civil em 2024 e perspectivas. https://cbic.org.br/wp-content/uploads/2024/12/final-desempenho-economico-cc-dezembro-2024.pdf

CBIC. Desempenho da Construção Civil e perspectivas (out/2025). https://cbic.org.br/wp-content/uploads/2025/10/final-desempenho-cc-outubro-2025.pdf

FGV IBRE (Blog do IBRE). O protagonismo do custo do trabalho na construção: dinâmica recente e expectativas. https://blogdoibre.fgv.br/posts/o-protagonismo-do-custo-do-trabalho-na-construcao-dinamica-recente-e-expectativas

FGV. INCC‑M sobe 0,63% em janeiro (2026). https://portal.fgv.br/noticias/incc-m-janeiro-2026

IBGE. SINAPI – Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9270-sistema-nacional-de-pesquisa-de-custos-e-indices-da-construcao-civil.html

IBGE (Agência de Notícias). Índice Nacional da Construção Civil… (dez/2025). https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45639-indice-nacional-da-construcao-civil-chega-a-0-51-em-dezembro-e-fecha-2025-com-alta-de-5-63

ABECIP. Mercado imobiliário preocupado com a manutenção da taxa Selic. https://www.abecip.org.br/imprensa/noticias/mercado-imobiliario-preocupado-com-a-manutencao-da-taxa-selic

Banco Central do Brasil. Séries históricas. https://www.bcb.gov.br/estatisticas/seriehistorica

Valor Econômico. Falta de mão de obra e custo pressionam construção (out/2025). https://valor.globo.com/brasil/noticia/2025/10/21/falta-de-mao-de-obra-e-custo-pressionam-construcao.ghtml

CBIC. Setor da construção civil reage à falta de mão de obra com apoio da IA e da gestão (pesquisa Falconi). https://cbic.org.br/setor-da-construcao-civil-reage-a-falta-de-mao-de-obra-com-apoio-da-ia-e-da-gestao-mostra-pesquisa-da-falconi/

CBIC. Custos dos insumos se estabilizaram em patamar muito elevado…. https://cbic.org.br/custos-dos-insumos-se-estabilizaram-em-patamar-muito-elevado-e-a-mao-de-obra-preocupa-a-medio-prazo/

Torgansa. Desafios na cadeia de suprimentos da construção civil…. https://torgansa.com.br/industrias-e-infraestruturas/os-desafios-na-cadeia-de-suprimentos-da-construcao-civil-e-a-solucao-das-compras-auditadas-da-torgansa/

Portas. Selic pode cair a 12,25% em 2026 e aquecer setor imobiliário. https://portas.com.br/noticias/selic-pode-cair-a-1225-em-2026-e-aquecer-setor-imobiliario/