
A construção civil perde cerca de 20% de produtividade por retrabalho, coordenação deficiente e falta de padronização. Esse número vem de um relatório de 2020 da Dodge Data & Analytics, que acompanhou centenas de projetos nos Estados Unidos e documentou atrasos de 15% a 25% em cronograma e sobrecustos de 10% a 20% em orçamento como resultado de métodos tradicionais. A questão que o setor carrega há décadas é saber se existe um caminho técnico para sair desse cenário . A resposta que a pesquisa acadêmica e os dados de projetos reais oferecem é sim, e passa por um método chamado Design for Manufacture and Assembly (DfMA).
DfMA não é uma tecnologia, é uma lógica de projeto. Parte de uma premissa simples, o design de um edifício ou instalação industrial deve ser determinado, em grande parte, pela capacidade de fabricação e montagem dos componentes que o compõem. Quando essa lógica é aplicada desde as fases iniciais do projeto, muda a natureza do processo construtivo não apenas a velocidade de execução. A obra deixa de ser o lugar onde tudo é resolvido e passa a ser o lugar onde tudo é montado.
O que DfMA significa na prática
A aplicação de DfMA começa na fase de concepção do empreendimento. Começa quando engenheiros sentam junto com arquitetos e definem quais componentes serão padronizados, quais conexões serão simplificadas e qual sequência de montagem será otimizada. Esse processo tem nome e sobrenome, compatibilização orientada à fabricação.
Um estudo publicado em 2024 na revista Automation in Construction documentou os resultados dessa compatibilização em projetos de infraestrutura que integraram DfMA com Building Information Modeling (BIM).
· Redução de 30% no tempo de montagem.
· Redução de 75% na mão de obra no canteiro.
· Redução de 20% no uso de materiais.
· Redução de 50% na geração de resíduos.
· Redução de 25% nas emissões de carbono.
Esses resultados não vieram de um único projeto. Vieram de uma análise que incluiu o roadmap americano Offsite Construction for Housing: Research Roadmap 2022, que consolidou dados de múltiplos projetos ao longo de vários anos.
O mecanismo por trás desses números é a transferência de trabalho do canteiro para a fábrica. Quando um componente é fabricado em ambiente controlado, com ferramentas calibradas, operadores treinados e processos documentados, a variabilidade cai. Quando esse mesmo componente chega ao canteiro pronto para encaixar, o tempo de montagem cai junto. Sem ajustes, espera por decisões ou retrabalho.
DfMA em edificações comerciais e residenciais
A aplicação de DfMA em edificações não é restrita a projetos de grande escala. Um framework baseado em BIM para aplicação de DfMA em edificações comerciais e residenciais foi desenvolvido e testado em um caso real na Itália, documentado em 2020 na ResearchGate. O estudo mostrou que a aplicação de DfMA desde a fase de anteprojeto reduz o número de interferências entre disciplinas detectadas no canteiro em mais de 60%. Interferências que, em projetos tradicionais, são descobertas durante a execução e geram paralisações, retrabalho e custo adicional.
Um segundo estudo, publicado em 2021 pela Pensoft Publishers, analisou um projeto de habitação acessível na China, o Sichuan Affordable Housing Project. O projeto usou construção modular com BIM e DfMA integrados. Os resultados incluíram redução de 36% no consumo de água durante a construção e redução de 30% no consumo de energia.
A lógica por trás desses resultados é a mesma que governa qualquer processo industrial. Quando um produto é fabricado em série, com componentes padronizados e processos repetíveis, a curva de aprendizado da fábrica reduz o tempo e o custo de cada unidade produzida. A construção modular aplica essa lógica a edifícios. Cada módulo é uma unidade de produção. Pode ser testado antes de sair da fábrica e chega ao canteiro funcionando.
DfMA em projetos industriais e infraestrutura
Em projetos industriais, a aplicação de DfMA tem histórico documentado em projetos de grande porte. O projeto Crossrail em Londres, o maior projeto de infraestrutura da Europa quando foi executado, registrou resultados específicos de DfMA aplicado a túneis, estações e sistemas ferroviários.
· Redução de 30% no tempo de montagem de componentes pré-fabricados.
· Redução de 40% nos incidentes de segurança em atividades off-site versus on-site.
· Redução de 20% no custo de mão de obra em componentes padronizados.
Esses dados foram documentados pelo Crossrail Learning Legacy em 2018 e são auditáveis.
O quesito segurança também merece atenção. Quando trabalho é transferido para a fábrica, trabalhadores saem de ambientes com risco de queda, choque e exposição a intempéries e passam a operar em ambientes controlados, com equipamentos de proteção, ergonometria, processos documentados e ferramentas adequadas. A redução de 40% nos incidentes no Crossrail não é coincidência. É resultado direto dessa transferência.
Em plantas industriais, a aplicação de DfMA tem histórico de mais de 50 anos, documentado em pesquisa sobre modularização de plantas industriais. Módulos de processo, módulos de utilidades e módulos de instrumentação são fabricados em pátios especializados, testados antes do transporte e montados no local. Quando esse processo é bem executado, o cronograma de montagem no campo cai drasticamente porque a maior parte do trabalho já foi feita na fábrica.
O papel do BIM na integração com DfMA
BIM tem papel fundamental aqui, é um sistema de informação que conecta design, fabricação e montagem. Quando integrado ao DfMA, o modelo BIM entrega não apenas a geometria de cada componente, mas também seu material, peso, sequência de fabricação, montagem e fornecedor responsável. Ao alterar algum detalhe no modelo, o é possível verificar imediatamente se essa mudança afeta a fabricação de algum componente já em produção.
Um estudo de 2021 publicado pela Pensoft Publishers sobre integração BIM-DfMA em construção modular documentou que essa integração reduz o número de pedidos de informação (RFIs) durante a execução em mais de 50%. RFIs são pedidos formais de esclarecimento que construtores enviam a projetistas quando encontram ambiguidades ou conflitos ou omissões no projeto. Cada questionamento gera espera que por sua vez, gera atraso. Quando o modelo BIM é compatibilizado com DfMA desde o início, os conflitos são resolvidos antes da fabricação começar.
A integração BIM-DfMA também cria bibliotecas de componentes paramétricos. Esses componentes podem ser ajustados para diferentes projetos sem perder a eficiência de fabricação. Um painel de parede pode ter 3 metros ou 4 metros de largura, mas ambas as versões usam o mesmo processo de fabricação porque foram projetadas dentro de uma família paramétrica que respeita os limites da fábrica.
Padronização de componentes e homologação de fornecedores
A padronização de componentes é o que transforma DfMA de método de projeto em modelo de industrialização. Quando múltiplos projetos usam os mesmos componentes, fabricados pelas mesmas fábricas, com os mesmos processos, a variabilidade cai exponencialmente. Cada novo projeto aproveita a curva de aprendizado dos projetos anteriores.
Um estudo de 2023 publicado pela METU Open Archive analisou como a padronização do contêiner de carga transformou a logística global e propôs um modelo análogo para a construção modular. A conclusão é que a falta de padrões interoperáveis é a principal barreira para a escala global do DfMA. Quando componentes de diferentes fabricantes não são intercambiáveis, cada projeto precisa resolver suas próprias interfaces. Quando são intercambiáveis, o mercado de fornecedores se amplia e os custos caem.
A homologação de fornecedores é o mecanismo que garante que a padronização funciona. Singapura tornou o sistema PPVC (Prefabricated Prefinished Volumetric Construction) obrigatório em habitação pública e criou um sistema de homologação de fornecedores com rastreabilidade completa, documentado no guia oficial BIM for DfMA do BCA Singapore em 2024. Cada fornecedor homologado segue processos padronizados, usa componentes dentro de especificações definidas e tem seus produtos rastreados desde a fabricação até a montagem.
O Reino Unido criou o esquema BOPAS (Buildoffsite Property Assurance Scheme) para validação de construtores off-site junto a financiadores e seguradoras. Esse esquema foi documentado pelo Parlamento Britânico em 2019 e responde a uma necessidade real de bancos e seguradoras que precisam de garantias de que edificações modulares têm durabilidade e qualidade equivalentes às edificações tradicionais. Sem essa garantia, o financiamento é mais caro e o seguro é mais restritivo.
Sustentabilidade e ESG como resultado, não como objetivo
A redução de resíduos, emissões e consumo de energia em projetos DfMA é resultado da eficiência do processo. Quando menos material é desperdiçado, menor as emissões. Quando menos viagens ao canteiro são necessárias, menor o consumo de combustível. Quando componentes são produzidosem fábricas com controle de processo, o consumo de energia por unidade produzida também é menor que em canteiros tradicionais.
Um artigo de 2025 publicado na MDPI Energies analisou a aplicação de DfMA em construção em madeira e documentou redução de 30% nas emissões de carbono incorporado em projetos residenciais. O carbono incorporado é o carbono emitido durante a fabricação dos materiais e a construção do edifício, antes de ele entrar em operação. É uma métrica que ganhou relevância em certificações internacionais como LEED e AQUA, que avaliam o impacto ambiental do ciclo de vida completo do edifício.
A revisão sistemática de 2025 publicada na MDPI Buildings, que analisou mais de 200 artigos publicados entre 2015 e 2024, identificou que tecnologias digitais como IoT, inteligência artificial e gêmeos digitais amplificam os ganhos de sustentabilidade do DfMA quando integradas ao processo de fabricação. Sensores em fábricas monitoram consumo de energia por componente. Gêmeos digitais simulam o desempenho do edifício antes da montagem. Algoritmos de inteligência artificial otimizam sequências de fabricação para reduzir desperdício.
O problema da escala e o ponto de inflexão
O relatório da McKinsey & Company de 2019 sobre construção modular documentou um dado que define o problema de escala, fábricas com volume acima de 1.000 unidades por ano atingem o limiar de produtividade onde os ganhos se aceleram. Abaixo desse volume, os custos fixos de setup, ferramentas e treinamento são altos em relação ao volume produzido. Acima desse volume, esses custos se diluem e a curva de aprendizado gera ganhos crescentes.
Esse dado tem implicação direta para o modelo de negócio de industrialização. Uma única empresa que tenta construir sua própria fábrica e abastecer seus próprios projetos raramente atinge o volume necessário para cruzar o limiar de produtividade. Uma rede de fábricas homologadas que atende múltiplos clientes e múltiplos projetos tem muito mais chance de atingir e manter esse volume.
A análise econômica de automação em fábricas modulares publicada em 2025 na Frontiers in Built Environment confirmou essa lógica com dados financeiros. Apesar de custos iniciais 321% maiores que processos manuais, a automação em fábricas modulares gera valor presente líquido positivo de 640 mil dólares, razão benefício-custo maior que 2 e payback de aproximadamente 3 anos. A análise de sensibilidade mostrou que a viabilidade do projeto é mais sensível à taxa de utilização da fábrica do que ao custo de mão de obra. Em outras palavras, o que determina se a automação vale a pena não é o salário dos operadores. É se a fábrica tem volume suficiente para operar com alta taxa de utilização.
O relatório do World Economic Forum de 2016 sobre o futuro da construção documentou que a pré-fabricação reduz paralisações por condições climáticas, melhora o sequenciamento do processo construtivo e cria ambientes de trabalho mais seguros. Esses benefícios não dependem de tecnologia específica, mas de um modelo de negócio que organize a rede de fabricação de forma que o volume seja suficiente para sustentar a operação.
Conclusão: quem pode conduzir a industrialização
A industrialização da construção via DfMA não é um projeto de uma única empresa. É um modelo de coordenação de rede. Requer engenharia consultiva que identifique onde está a variabilidade em cada projeto. Requer homologação de fábricas que garanta rastreabilidade e qualidade. Requer compatibilização técnica que elimine conflitos antes da fabricação. Requer contratos que alinhem incentivos de todos os participantes. Requer profissionais com experiência em Lean Manufacturing e Six Sigma para liderar operações industriais.
A Ábaco tem as condições técnicas e operacionais para conduzir esse processo. Seu modelo de negócio combina engenharia consultiva baseada em compatibilização técnica avançada, com homologação de fábricas e fornecedores sem necessidade de CAPEX próprio.
E corresponde exatamente ao que a literatura identifica como necessário para escalar DfMA: coordenação de rede, engenharia de compatibilização, homologação de fornecedores, gestão de operações industriais e integração de sustentabilidade. A Ábaco não constrói fábricas. Coordena fábricas existentes com padrões definidos. Usa tecnologia para suportar método. Esse é o caminho que a pesquisa acadêmica e os casos reais indicam como viável para transformar projetos imprevisíveis em operações controladas.
Referências
ScienceDirect / Automation in Construction (2024). Integrating Design for Manufacture and Assembly (DfMA) with BIM for infrastructure.
ScienceDirect (2025). AEC perceptions on DFMA collaboration and supporting technologies for prefabricated housing in Australia and New Zealand.
ResearchGate (2020). A BIM-based approach for DfMA in building construction: framework and first results on an Italian case study.
Nature / Scientific Reports (2023). DFMA-oriented modular and parametric design.
MDPI Energies (2025). Design for Manufacturing and Assembly (DfMA) in Timber Construction: Advancing Energy Efficiency and Climate Neutrality in the Built Environment.
MDPI Buildings (2025). Modular Construction in the Digital Age: A Systematic Review on Smart and Sustainable Innovations.
Pensoft Publishers / Applied Sciences (2021). A Preliminary Study on BIM Integration in Modular Construction.
McKinsey & Company (2019). Modular Construction: From Projects to Products.
Frontiers in Built Environment (2025). Cost-benefit analysis of automating modular construction manufacturing for affordable housing.
Aratau Modular (2022). Financial Modeling for Modular and Offsite Construction.
World Economic Forum (2016). Shaping the Future of Construction.
BCA Singapore / Corenet (2024). BIM for DfMA: Essential Guide.
Parlamento do Reino Unido / House of Lords (2019). Off-site manufacture for construction: Building for change.
METU Open Archive (2023). Development of Standards for Modular Construction: Learning from the Freight Container.
Crossrail Learning Legacy (2018). Crossrail's Key Performance Indicators: DfMA and Offsite Construction.
Dodge Data & Analytics (2020). Prefabrication and Modular Construction SmartMarket Report.


